USP conduz estudo sobre uso de ayahuasca para tratar depressão

Na primeira edição desse ano, a Revista Brasileira de Psiquiatria publicou um estudo sobre o uso de ayahuasca para tratamento da depressão. As sessões foram conduzidas no Departamento de Neurociência e Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).

A causa da depressão é incerta, mas a hipótese mais aceita atualmente – e na qual os tratamentos tradicionais se baseiam – é de que ela é causada por um desequilíbrio nas monoaminas cerebrais como a dopamina, norepinefrina e especialmente, serotonina. Os efeitos psicoativos da ayahuasca são produzidos pela ação conjunta da inibição das enzimas monoamina oxidase no trato gastrointesinal e no fígado; assim como a ação do DMT nas áreas frontais e paralímbicas do cérebro, mais precisamente nos receptores 5-HT1A/2A/2C, que são receptores que se ligam à serotonina.

A ação agonista dos alcalóides presentes na ayahuasca sobre os receptores serotonérgicos junto com os relatos de que a bebida causa sensações de bem-estar levaram à hipótese de que ela pode ser útil no tratamento da depressão.

Método

O estudo contou com 6 participantes diagnosticados com depressão leve a severa e que não encontraram benefícios com os tratamentos tradicionais. A amostra de ayahuasca foi preparada por membros do Santo Daime, consistindo de galhos do cipó Banisteriopsis caapi – ricos em harmina (inibidor da monoamina oxidase) – e folhas do arbusto Psychotria viridis – ricas em DMT.

Cada participante tomou 2mL/kg de ayahuasca, que continha 0.8mg/mL de DMT e 0.21mg/mL de harmina. A sessão ocorreu numa sala psiquiátrica com luz baixa, onde os participantes permaneceram sentados numa poltrona confortável por aproximadamente 4h enquanto os testes eram feitos.

Várias escalas para medir os níveis de depressão foram usadas. Uma primeira medição foi feita 10 minutos antes da ingestão da ayahuasca e, após a ingestão, várias outras medições ao longo do dia; assim como no dia seguinte, 7, 14 e 21 dias depois.

Resultados

No primeiro dia depois da ingestão, os níveis de depressão caíram 62%, diminuindo ainda mais em 72% no sétimo dia, subindo um pouco no 14º e voltando a cair no 21º (figura 01).

As mudanças mais marcantes nas pontuações foram causadas por itens relacionados ao humor, sentimentos de culpa, intenções suicidas e dificuldades no trabalho e outras atividades.

Os medicamentos tradicionais usados no tratamento de depressão demoram em média 2 semanas para fazer efeito, enquanto a ayahuasca mostrou benefícios logo no primeiro dia após sua ingestão.

A administração da ayahuasca nos participantes não produziu efeitos cognitivos e sensórios de forma significativa, apesar de terem sido observados entre 80 e 140 minutos após ingestão. A ausência desses efeitos pode ser explicada pela concentração relativamente baixa de DMT na amostra que foi usada. Isso sugere que mudanças na percepção podem não ser essenciais para os efeitos terapêuticos.

A bebida foi bem tolerada pelos participantes, sugerindo que ela pode ser administrada de forma segura a pacientes com depressão. O único efeito adverso reportado pelos voluntários foi o vômito, mas eles não consideraram que isso teve qualquer influência sobre os efeitos antidepressivos, além de não considerarem ter sido um desconforto grave.

Os resultados indicam que a ayahuasca tem um potencial significativo como antidepressivo. Foram observadas diminuições nos níveis de depressão nas diversas escalas, e as diferenças foram semelhantes em todos os voluntários, que passavam por episódios depressivos de intensidades diferentes e que não encontraram ajuda nos medicamentos tradicionais.

Fonte: SCIELO e Tripby